segunda-feira, 12 de março de 2018

CIMBARRA: VETOR DE UMA MEMÓRIA INDUSTRIALIZANTE NO NORTE


CIMBARRA: VETOR DE UMA MEMÓRIA INDUSTRIALIZANTE NO NORTE CAPIXABA (1925-1978)

SERGIO BAPTISTA DA FONSECA
HISTORIADOR/SEMCULT
sbaptistadafonseca@yahoo.com.br

SALOMÃO DA SILVA PINTO
ESCRITOR/SEMCULT
poetasalomao@hotmail.com

Resumo
O Presente artigo tem por objetivo apresentar os excertos de uma pesquisa em curso sobre a história da Companhia Industrial de Madeira de Barra de São Matheus, em Conceição da Barra. Visa demonstrar o seu valor no contexto de memória do desenvolvimento da cidade. Ela foi o ator central na estruturação econômica da cidade enquanto ente federativo autônomo, separada do município de São Mateus. Um projeto e um sonho de futuro. Conhecer a sua história e preservar o seu acervo documental é compromisso com a memória de todos os cidadãos.

Palavras-chave: CIMBARRA; ACERVO DOCUMENTAL; MEMÓRIA DE CONCEIÇÃO DA BARRA.

Caixa de Texto: O

Os excertos que ora apresentamos é extraído de uma pesquisa em curso sobre a história da CIMBARRA: Companhia Industrial de Madeira de Barra de São Matheus. Pesquisa essa intrinsicamente vinculada ao processo de preservação de acervos documentais relativos à memória histórica da cidade de Conceição da Barra. Desse modo, nos baseamos em três vetores fundamentais, a saber:

                      
*                   Elaboração de uma política de preservação dos acervos documentais e de memória do   municipio;
*                   Memória Oral: através da identificação de atores que foram operário(a)s nas atividades da Companhia, montamos uma série de entrevistas nas quais a memória fluí espontaneamente, permitindo o registro vivo dos acontecimentos de época.
*                   Levantamento dos acervos documentais e bibliográficos. Através da localização desses registros documentais poderemos proceder ao trabalho de preservação e disponibilização para o acesso do público leigo e de pesquisadores.

Sobre os acervos da CIMBARRA, destacamos que há diversos materiais “espalhados” pelo município, no estado e até fora, em instituições públicas e privadas, no arquivo nacional, muitos em locais incertos, sob os riscos de deterioração, a espera de exame, identificação, catalogação e preservação.
Esses registros documentais são testemunhos de época, tanto os orais como os escritos, eles revelam a memória de uma história que o tempo parece ter soterrado.
O município nasce enquanto ente federativo pelo Decreto n.º 28, de 19 de setembro de 1892, desmembrando-se de São Mateus. Mas o caráter de subsistência de sua economia não oferece fundamentos sólidos para a sua plena emancipação.
A Companhia, com o seu projeto industrializante, na década de 20 do século XX, é a promessa de sustentabilidade para a autonomia desse novo municipio.
Impressionante nesses acervos é o material fotográfico cujos registros nos revelam os painéis imagéticos de uma época, os modos de vida de um povo e os impactos sociais e nos costumes que a indústria e os aparatos tecnológicos causaram.

Com base nas lentes do fotógrafo Benevides Lima Júnior, a imagem impactante da operação dos empreendimentos da CIMBARRA impressiona os pesquisadores. Evidenciamos as fotos dos navios e a estrada de ferro com a Locomotiva simbolizando o progresso[1]. As duas imagens, fartamente documentadas, juntamente com as entrevistas e os registros escritos em fontes documentais, nos possibilitam adentrar o portal do tempo histórico, atravessar as décadas de acontecimentos para espiar a construção de um complexo sistema de produção industrial que tem inicio com as derrubadas de madeiras nas fazendas ao redor, o beneficiamento e tratamento na serraria sob as mãos de inúmeros operários e, finalmente, o transporte férreo até o estaleiro Caneco, com seu guindaste enorme e no fundo os navios prontos para serem carregados. O Rio Itaúnas funcionando como escoadouro das madeiras in natura e a embocadora do Cricaré no oceano atlantico o ponto de partida para exportação dos produtos industrializados.








BREVE HISTÓRICO DO MUNICIPIO DE CONCEIÇÃO DA BARRA[2]

Em 11 de agosto de 1831, Barra de São Mateus foi instituída paróquia sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição, cuja imagem era venerada numa rústica capelinha erguida nos primórdios da colonização. Foi elevada à categoria de vila por resolução do conselho do governo, no dia 02 de abril de 1833. A solenidade da instalação da cidade deu-se em 06 de outubro do mesmo ano, ficando esse dia estabelecido por lei, para se comemorar o município que recebeu a denominação de Conceição da Barra, sendo o primeiro nome uma homenagem à Padroeira e, o segundo, lembrando o primeiro nome que os portugueses deram à povoação. No dia 10 de junho de 1892, foi criada a comarca do município que teve como Juiz de Direito o Dr. Carlos Gonçalves, suprimida em 1900 e restabelecida em 1951. Segundo o poema de Padre José de Anchieta, onde descreve a Batalha do Cricaré, foi nas águas desse rio, que Fernão de Sá, ferido, perdeu a vida, quando lutava contra os gentis[3].
A área do município foi regulamentada em 1885, pela Lei Municipal n.º13, em 07 de janeiro do mesmo ano. No ano de 1911, o município era composto de dois distritos: o da sede e o de Itaúnas. Um terceiro distrito apareceu na divisão administrativa de 1933, o de Barreado, que perdurou até 1936.
Assim permanecendo em divisões territoriais de 31/12/1936 e 31/12/1937. No site da prefeitura de Conceição da Barra[4], podemos acessar as seguintes informações quanto ao mapa politico-administrativo do municipio: Conforme a legislação estadual nº 265, de 22/10/1949,  o distrito de Taquaras surge como território desvinculado da sede, já totalmente pertencente ao município de Conceição da Barra.
Na divisão territorial datada de 01/07/1950, o município é constituído de 3 distritos: Conceição da Barra, Itaúnas e Taquaras. Assim permanecendo em divisão territorial datada de 01/07/1960. Pela lei estadual nº 1931, de 07/01/1964, é criado o distrito de Vinhático e anexado ao município de Conceição da Barra. Em divisão territorial datada de 01/01/1979, o município é constituído de quatro distritos: Sede, Itaúnas, Taquaras e Vinhático.
Pela lei estadual nº 3383, de 27/11/1980, o distrito de Taquaras passou a denominar-se Pedro Canário. Em divisão territorial datada de 31-07-1983, o município é constituído de quatro distritos: Conceição da Barra, Itaúnas, Pedro Canário e Vinhático.
Pela lei estadual nº 3623, de 23/12/1983, desmembra do município de Conceição da Barra, o distrito de Pedro Canário. Elevado à categoria de município. Em divisão territorial datada de 18-08-1988, o município é constituído de dois distritos: Conceição da Barra e Itaúnas.
Pela lei estadual nº 4075, de 11/05/1988, é criado o distrito de Braço do Rio e anexado ao município de Conceição da Barra. Em divisão territorial datada de 01-06-1995, o município é constituído de três distritos: Conceição da Barra, Braço do Rio e Itaúnas. Em 2011, o Executivo propôs e a Câmara Municipal aprovou a criação do Distrito do Cricaré, integrado pelas comunidades ribeirinhas de ambas as margens do Rio Cricaré.
De acordo com os registros da Secretaria de Turismo, através de trabalhos não publicados, o município foi elevado a Vila em 1831, Vila de Barra de São Mateus, que passou a tomar parte na vida política em 1833. Realizaram-se eleições para escolha de vereadores e entre os eleitos foi escolhido para presidente da câmara o vereador Padre Manoel dos Santos Pereira, a quem cabia a responsabilidade de administrar o município e era denominado intendente.
O município cedeu parte do seu território para a formação dos municípios de: Mucurici em 1953, Pinheiros em 1964, Pedro Canário em 1983. Em 1922, houve eleições para o primeiro prefeito,
sendo eleito Astrogildo Carneiro Setúbal, apresentado pelo influente político Bernadino de Oliveira Filho. Setúbal governou até 1927, ao ser eleito Manuel Antônio de Oliveira, este não cumpriu todo seu mandato, devido à revolução de 1930. De 1930 a 1947, não houve eleições.
Nesse período, os Governadores eram nomeados pelo presidente da república e os prefeitos pelo governador e recebiam o nome de interventores. Com o fim do Estado Novo, em 02 de dezembro de 1947, houve eleição para prefeito e vereadores, sendo, eleito prefeito Bento Daher que administrou até 31 de janeiro 1951. Outros prefeitos: Ítalo Benso -1951/1955; Bento Daher -1955/1959;
Edward Abreu do Nascimento - 1959/1963; Mário Vello Silvares - 1963/1967 (foi eleito, mas nem chegou a ser empossado por seu estado de saúde não permitir, sendo substituído por Edgard Cabral da Silva que renunciou antes de terminar seu mandato, assumindo o presidente da câmara Gastão Kock da Cunha); José Luiz da Costa - 1967/1971; Bento Daher - 1971/1973; Gentil Lopes da Cunha – 1973/1977; Humberto de Oliveira Serra - 1977/1983; Aluizio Feu Smiderle - 1983 administrou por apenas 45 dias, falecendo em consequência de um acidente de trânsito, assumindo a gestão, seu vice, Oribes Storch, que administrou até 1988; Humberto de Oliveira Serra 1989/1992, renunciou antes de terminar seu mandato, assumindo João Alves dos Santos, o vice; Mateus Vasconcelos - 1993/1996; Nélio Ribeiro Nogueira - 1997/2000, foi afastado pela câmara 3 meses antes de terminar seu mandato e, com a renúncia do vice prefeito Sebastião Farias que iria disputar
eleição, assumiu o presidente da câmara Edmundo Thomaz Soares Norberto; Francisco Carlos Donato Júnior (2001/2004) e Manuel Pereira da Fonseca, também conhecido como ―Manoel Pé de Boi‖ (2005/2008). Em outubro de 2008, houve eleição para prefeito, tendo disputado as eleições o atual prefeito Manuel Pereira da Fonseca, o ex-prefeito Francisco Carlos Donato Júnior e o empresário Jorge Donati. Foi eleito o empresário Jorge Donati, conhecido como ―Jorginho, com uma diferença de 800 votos para o prefeito anterior, tendo como vice-prefeita a Sra. Adélia Augusta de Matos Marchiori, nome conhecido no meio educacional por ter sido Secretária de Educação, por  (três) mandatos consecutivos de 1989 a 2001. Atualmente, o chefe do executivo municipal é o doutor Francisco Bernhard Vervloet.


CIMBARRA: UM ARROJADO SONHO DE PROGRESSO

Do ponto de vista do contexto histórico de elaboração e criação da CIMBARRA, sem dúvida 1930 é o marco. A revolução é considerada divisor de águas na história do Espírito Santo: Ainda que a transformação de um ambiente agrário/rural para um industrial/urbano só ocorrerá por volta do final da década de 1960, e talvez por isso mesmo, o complexo industrial da Barra de São Matheus desperta todo um interesse especial de pesquisa.
A atividade agrícola era predominante. Conceição da Barra manteve a mandioca como seu principal produto. Sua economia, essencialmente de subsistência, tinha como produtos adicionais, o milho e o feijão, que, por serem cultivados em pequenas quantidades, não possibilitavam excedentes para a comercialização.
A extração da madeira de lei, como o jequitibá, o jacarandá e a peroba-amarela, foi uma importante fonte de renda até o final da década de 70, o que determinou a exaustão de sua floresta. A pesca ainda é uma importante atividade no Município, assim como a lavoura, a pecuária em pequena escala e o turismo, potencialmente em escala relevante. 
A CIMBARRA atravessa esse marco histórico. Fundada em 1925 por: Bernardino Chaves (portugues) e Humberto Donato. A direção estava nas mãos de seu Raulino Alfredo Costa. A fundação se dá, portanto, antes da revolução de 1930, dentro do contexto agrário/rural e na dinâmica hegemônica do café. A sua vocação é já inteiramente industrializante, urbana e modernizante. Desvinculada do mundo do café, é direcionada pelos seus visionários fundadores, para uma modernização incrivelmente inovadora.
O registro civil da firma ocorreu na cidade do Rio de Janeiro. Cidade para o qual se destinará os seus produtos manufaturados. A confirmação da existência e o acesso ao exame da documentação  relativa a vida civil da CIMBARRA é etapa de pesquisa a ser desenvolvida ao longo dos meses seguintes[5].
O nome da firma era conhecida como serraria do Pai João, nome do bairro onde ficava localizado o espaço das instalações dos maquinários das operações.
Alem das fronteiras do município, porém, o nome era: CIMBARRA. Esse nome representa a  totalidade do suntuoso projeto: Uma perspectiva visionária, muito além dos limites de seu tempo. Dado inclusive o fato de que a localização geográfica era o norte do Espírito Santo que, em 1925, era praticamente inabitado. O sucesso era altamente improvável.
Para se ter uma idéia do arrojo do projeto, destacamos aqui todos os componentes que compreendiam a CIMBARRA:
(1)              Fabricação de navios: Os marceneiros cortavam na serraria as madeiras para a fabricação ou reforma denavios. Próximo ao pontilhão, onde atualmente existe um estaleiro naval, havia apenas uma carreira, onde as as peças de madeira emparelhadas eram trazidas via Locomotiva e ali mesmo eram montadas. Um navio, em especial, entrou para a história de Conceição da Barra. O Itaúnas, construído em torno do ano de 1941. O navio São Mateus foi reforma aqui. Nas entrevistas orais, outros nomes de navios que passaram por Conceição da Barra foram citados: Progresso, Luiz Soares, Cacique, Norma, Richarlis[6].
(2)              Serraria: um moderno pátio de instalações mecanicas, com enorme capacidade de processamento e beneficiamento de madeira, desenvolvida eficiência na reposição de peças feitas na própria base do operacional do complexo industrial. A madeira era beneficiada, com mais máquinas como desempenadeira, desengrosso, serras taqueiras, esquadrejadeira, furadeira, plaina de 3 faces para fazer piso e forro, entalhadeiras de corrente para fazer assoalhos e tacos.
(3)              Fazendas: A empresa recebeu vários lotes de terras devolutas. Numa única tacada chegou a obter 10.000 ha de terra. Que iam do litoral até as divisas com os estados de Minas e da Bahia. A colonização da região se dividia entre 25 a 30 há de lotes. Foi a partir dessas concessões estatais para o grupo que a CIMBARRA promoveu, em tempo record, a ocupação e colonização do norte do Espírito Santo. Segundo os dados que tivemos acesso até o momento, duas povoações e três municípios nasceram como obra e conseqüência do CIMBARRA. São eles: a) Vinhático e Tres de Agosto (povoações); b) Pinheiro, Mucurici e Montanha (município); Municipios que pertenceram a Conceição a Barra, mas que posteriormente foram emancipados;
(4)              Armazém; Gêneros alimenticios. Tecidos, e.t.c. Eram comercializados nesse armazem;
(5)              Hospital. Onde o Dr° Mário Vello Silvares atuou, atendendo funcionários e comunidade.

Temos agora que mencionar o senhor Arthur João Donato, um ator fundamental nessa nossa história, suas iniciativas são fundamentais para a compreensão do sentido de continuidade do projeto da CIMBARRA.
Artur João Donato nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 16 de agosto de 1922, filho de Humberto Donato, de ascendência italiana, e de Hermínia Durão Donato, de origem portuguesa.
Em 1945, formou-se pela Faculdade Nacional de Direito da antiga Universidade do Brasil, iniciando a vida profissional como solicitador em um escritório de advocacia. Em 1948 concluiu doutorado em direito público e constituiu banca de advocacia.
Em 1945, visando a ampliar a participação no mercado carioca, o grupo adquiriu o controle acionário de uma empresa restauradora de navios fundada em 1886, o Estaleiro Caneco, instalada no bairro portuário do Caju. A compra representou o ingresso do grupo na construção naval e, ao mesmo tempo, a obtenção de um ponto estratégico de escoamento da madeira transportada do Espírito Santo para o porto do Rio.
Em 1958 estava em curso o Plano de Metas, estabelecido pelo presidente Juscelino Kubitschek, do qual fazia parte o Grupo Executivo da Indústria da Construção Naval (Geicon), que tinha por objetivo estudar projetos de financiamento para a ampliação da capacidade de produção dos estaleiros brasileiros e de dois estrangeiros que então se instalaram no Brasil. O Geicon contemplou seis — Ishikawajima, Verolme, Caneco, Mauá, Só e Emaq — com financiamentos que os habilitavam a construir navios de médio e grande porte. Além da instalação do Geicon, outra medida de grande importância para o desenvolvimento da indústria naval foi a instituição do Fundo de Marinha Mercante (FMM).
Ainda em 1958, Donato assumiu a direção das Indústrias Reunidas Caneco S.A.. — Estaleiro Caneco e das demais empresas da família (Companhia Industrial de Madeiras Barra de São Mateus e Navegação Artur Donato Ltda.). No ano seguinte, o projeto do Estaleiro Caneco foi aprovado no Geicon, habilitando a empresa a construir embarcações com mais de cinco mil toneladas de porte bruto (TPB). Em abril de 1960, Donato passou a responder pela presidência do estaleiro. Dentro desse processo de ampliação da indústria naval, o Estaleiro Caneco recebeu em 1960 a primeira encomenda de uma embarcação de 3.040 TPB, cuja entrega definitiva ocorreria apenas em 1966, dadas as dificuldades tecnológicas e gerenciais enfrentadas pela empresa, que foram de modo geral comuns às demais empresas do setor no início do programa. Com isso, a CIMBARRA ganhou um reforço de uma mente poderosa, dinâmica e capaz de gerenciamento absurda.
Voltando aos tipos de madeiras encontradas na região: Jacarandá, Peroba, Ipê, Sucupira. Haviam outras madeiras de lei: Cedro, Angico, Paraju, Guarabu, Protumuju, Imbuíba, Juirona, óleo, Cacestas, Pau D`Arco, Angelins, e.t.c. O principal polo produtor era o povoado de Vinhático. A indústria da madeira se tornou a principal fonte de renda do municipio. Nessa fase da pesquisa, ainda não conseguimos apurar a receita total oriunda da extração, do beneficiamento e da exportação desse produto para os cofres do prefeitura.
De acordo com o que apuramos nas entrevistas orais, o empreendimento chegou a contar aproximadamente com 170 operários. A título de comparação, a serraria industrial do Estado, localizada em Cachoeiro do Itapemirim e fundado também antes de 1930, contava aproximadamente com 200 operários. É relevante destacar que nesse caso, não havia atividades náuticas na região, com navios de grande porte operado as exportações dos produtos madeireiros como foi o caso da CIMBARRA no norte capixaba.
Também São Matheus possuiu uma indústria da madeira de grande porte. Chamava-se de “Societé Forestieri et industrielle de São Matheus”, datada do inicio do século XX, cujo volume de recursos bateu às portas dos RS. 1.500:000$000, tratada pela historiografia capixaba como o maior experimento industrial de madeira do espírito Santo da primeira metade do século XX[7].
CIMBARRA não ficou atrás. De acordo com os registros encontrados nas entrevistas do prefeito Humberto Serra, no auge das atividades da empresa, por volta da década de 1950:

“Em Conceição da Barra, havia duas grandes empresas: a serraria Conceição da Barra LTDA, que comprova madeira nas mãos de terceiros e levava-as, serradas, em seus próprios navios, para o Rio de Janeiro, e a Companhia Industrial de Madeiras de Conceição da Barra, que recebeu uma concessão do Estado de 10.000ha para explorar madeira e colonizar a região com lotes de 25 a 30 há, tendo, segundo o informante, implantado as povoações de três de agosto, Vinhático, Pinheiro, Mucuri e Montanha. Funcionou de 1925 a 1970. Primeiro enviava madeira in natura, e, posteriormente, industrializada, principalmente em forma de tacos e assoalhos. No auge de suas atividades, na década de 50, carregava de 10 a 15 navios, destinados ao Rio de Janeiro, por quinzena, com 300 a 400 m³ de madeira, cada um”[8].

Com base nesse testemunho, podemos projetar uma atividade industrial capaz de produzir cerca de 8 mil m³ de madeira por mês.
Na década de 1920, o governo central desenvolveu uma política de incentivo ao setor industrial de madeira que consistia em várias concessões, isenções fiscais e tributárias e participação do poder público nos capitais de financiamentos. Alguns fatores históricos explicam a escolha e as decisões desse tipo de incentivo.
Desde o inicio do século XX, com a expansão do capitalismo europeu, que havia boas perspectivas de exportação da madeira beneficiada, ou seja, espaço e condições para a criação de projeto industrializante puxado pelo negócio de madeiras. O fato também de que boa parte do território nacional ainda continuava com a cobertura florestal intacta, especialmente o território capixaba que contava com 80% de sua cobertura.
É verdade que a 1° guerra mundial interrompe esse processo, mas ele se restabelece assim que a guerra acaba.
Estudiosos capixabas têm destacado a questão “lindeira” e os conflitos de terra (vide a questão do contestado) mais a necessidade de povoamento da região como fatores decisivos para que o governo do estado do Espírito santo, em plena década de 1920, estimulasse um novo e distoante projeto de desenvolvimento social e economico. Esse processo se deu no governo de Florentino Avidos (23/05/1924 a 30/06/1928).
Quais incentivos foram dadas ao setor para a implantação do projeto industrializante? Eram as denominadas facilidades para a industria madeireira. Destacamos DOIS fatores:

(1)                       Fixação por 30 anos, do imposto sobre produção exportada na base do calculo contemporâneo, como contribuição única. Registrou-se um adicional de RS. 1$5000;
(2)                       Fixação do mesmo prazo, de uma contribuição sobre cada m³ de madeira extraído em matas do estado na base de 80% do imposto que seria devido.

O maquinário adquirido pela CIMBARRA no Rio de Janeiro teria resultado também de um “contrato de cessão” em que o estado teria incentivado as operações da empresa[9].
No atual estagio de nossa pesquisa algumas perguntas não foram respondidas. Por exemplo, não tivemos ainda como comprovar e determinar as origens dos fluxos de capitais que financiaram o empreendimento: se oriundos de enprestimos estrangeiros; dos governos federal ou estadual (hipótese mais aceita e considerada provisoriamente aqui); ou, ainda, capital da família dos Donates, os donos da firma. Essas lacunas denotam a necessitada de continuarmos a pesquisa.
Uma questão em especial nos inquietou: era a relativa a energia que alimentava o complexo industrial da CIMBARRA. Segundo apuramos na entrevista com o maquinista e operador industrial Sr Edson Calixto, vulgo Ferreirinha, haviam duas fontes de energia da Cimbarra. Uma, que alimentava as necessidades da Vila ( foram cerca de 23 casas construidas para abrigar os trabalhadores) e uma outra, a que alimentava o funcionamento do setor de operação de máquinas da serraria.
Para a Vila, era o motor estacionário, uma espécie de bomba geradadora cujo combustível era o óleo diesel[10]. Funcionava entre 18 e 20 hs da noite, ou até as 23hs, quando a serraria fazia plantão. durante toda a semana. Já para o setor de máquinas, havia o motor a vapor[11]. Em tempo chuvoso ou por causa da madeira verde, a energia diminuia. A chaminá que existe até hoje no bairro Pai João, interligava o vapor das máquinas no tratamento da madeira e tornou-se o monumento histórico vivo na forma de testemunho de uma época do progresso firmado numa espécie de mini revolução industrial do norte capixaba.
A Maria Fumaça funcionava em sistema Decauville, a sua história está ligada ao fim da Primeira Guerra Mundial em fazendas de café, para transporte dos grãos do terreiro até o local de armazenamento.
Também utilizado em fazendas bananeiras, na construção da serra nova do funicular de Paranapiacaba e posteriormente na vila de Taquarussu, instalações industriais, indústria madeireira, fábricas de cimento e mineradoras pequenas. Chegaram a existir máquinas articuladas com rodagem 0-4+4-0T, fabricadas pela própria Decauville, representando as maiores locomotivas desse sistema no Brasil. Foram empregadas máquinas e equipamento Francês e Alemão, provenientes de campanhas militares européias, além de equipamento posteriormente adquirido novo, com a popularização do meio no país. Existiram linhas Decauville nos Estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais e aqui no Espírito Santo.
Na CIMBARRA foi construido uma linha férrea de aproximadamente 3 KM que transportava a madeira para a serraria e também operários, os chamados vagonetes do sistema Decauville. Seu Ferrerinha se recorda dessa Locomotiva quase como um plano épico de existencia, de animadas conversas e brincadeiras entre os operarios.
De acordo com a historiografia, esse incentivos a indústria de madeira no norte capixaba se vncula  a um outro  projeto, o de uma estrada de ferro unindo Colatina a São Mateus (Nova Venécia), pronto em 1925 (feito sob o comando de Moacyr Avidos),  foi uma reação do governo de Florentino Avidos quando notou que o Norte do Estado estava sendo “engolido por mineiros e baianos”.https://sites.google.com/site/saogabrieldapalhaesbr/09-a-estrada-de-ferro-colatina-sao-mateus.
Assim como a data de seu registro de nascimento, a data de registro de encerramento das atvidades da CIMBARRA não são precisas. Segundo alguns relatos, a CIMBARRA teria iniciado as suas atividades por volta do ano de 1924 e encerrado em 1979 ou iniciado em 1925 e encerrado em 1978. Mais uma questão que precisa de um maior aprofundamento e acesso a documentação, caso obviamente ela ainda exista.
Nessa nossa primeira aproximação com a história da CIMBARRA nos deparamos com enorme dificuldades de pesquisa, começando com o prazo, bastante exiguo e com o dificil acesso aos arquivos de dominio público e os documentos ainda em mãos de pessoas privadas.
O espólio da vida civil da CIMBARRA, ao que tudo indica e com base no que apuramos até o momento, ainda é matéria de disputa judicial ou está submetida aos critérios morais dos hedeiros da família Donato.
Quanto aos acervos documentais sob as responsalidade da prefeitura municipal de Conceição da Barra, indicamos que falta uma politica de incentivos voltada para a preservação da memória. O arquivo municipal não possui funcionarios treinados para o manejo adequado da documentação e tampouco há um espaço (um centro de documentação e memória para a sua guarda e publicidade) de destino para os “papéis findos”, aqueles que não possuem mais utilidade administrativa para a instituição.
Concluimos com a citação de alguns nomes que apuramos e que atuaram nas atividades da CIMBARRA. Pessoas comuns que a história os manteve invisiveis. Esses nomes surgiram das entrevistas que fizemos ao longo da pesquisa. Frisamos que essa pesquisa está apenas no começo, muitas lacunas deverãos ser preenchidas. Esses nomes compõem uma lista que deverá ser checada  no deenvolver da pesquisa. Tudo isso indica a necessidade de darmos continuidade a esse importante trabalho de levantamento da história da cidade de Conceição da Barra.

Benedito de Isaura
Manoel Torneiro
Francisco
Oswaldo Muniz
Chico Marreta
Henrique Mauss.
Elias Miguel
Engenheiro Félix Cardoso.
Dona Julia
Julio Manoel da Silva. Mariricu 02/02/1912-06/01/1994 Trabalhou como pratico, guinado os navios Itauna e Serafim Donato.
Zé Coco.
Emenegudes: comerciante
João Noberto Ataide
Manoel Salustiano. Maquinista
Zozó

























1)    REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

2)      CONJUNTURA ECONOMICA (2/79);
3)      CURRIC. BIOG.; DONATO, A. Depoimento; Estado de S. Paulo (4/6/95, 29/3, 7 e 16/6/98); ESTALEIRO CANECO.Shipyard’s;
4)      FIRJAN-CIRJAN. RelatÓRIO (1995);
5)      Globo (15/8/92, 22/12/02);
6)      JORNAL DO BRASIL(16/9/91, 19/8 e 17/9/92);
7)      SENHOR (26/10/83);
8)      WEISS, J. Origens.
9)      BORGO, I.; PACHECO, R.; ROSA, L. B. R. de A. Norte do Espírito Santo: ciclo madeireiro e povoamento. Vitória: EDUFES, 1996. P 41,55.
10)  DALL‘ORTO, Marco Antonio Campo, Rio Cricaré e a História Cultural do seu povo, Vitória, 2009. Programa de Pós-Graduação em história da UFES – PPGHIS
11)  Lima Junior, Carlos Benevides – Conceição da Barra; Carlos Benevides Lima Junior; Rita de Cássia Bóbbio Lima; Wallace Bonicenha. Vitória: Multiplicidade, 2001. 48p. Ilustr.
13)   BITTENCOURT, Gabriel Augusto de Mello. História geral e econômica do Espírito Santo: do engenho colonial ao complexo fabril-portuário. Vitória, ES: Multiplicidade, 2006.
14)   CARVALHO, Enaile Flauzina. Redes Mercantis: A participação do Espírito Santo nocomplexo econômico colonial (1790 a 1821). Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo – SECULT, 2010.
15)   OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo / José Teixeira de Oliveira. 3 ed. - Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo: Secretaria de Estado da Cultura, 2008.








[1]Lima Junior, Carlos Benevides – Conceição da Barra; Carlos Benevides Lima Junior; Rita de Cássia Bóbbio Lima; Wallace Bonicenha. Vitória: Multiplicidade, 2001. 48p. Ilustr. Nesse livro, o acervo fotográfico de Benevides Lima é exposto e representado com uma rica narrativa dos fatos que compõem a história da cidade de Conceição da Barra.
[2]Como se trata de uma pesquisa alusiva a uma empresa simbolo da memória da municipio de Conceição da Barra, foi o presente trabalho publicado de uma forma resumida e fatual ( o que é muito natural em se tratando de uma promoção de eventos turísticos) sob a denominação de História... Entretanto, não podemos deixar de lutar pela edição integral deste estudo ja que inexiste contribuição regional especificamente sobre esse tema. Por outro lado, uma das vertentes atuais da historiografia brasileira privilegia a história local e regional, objetivando reconstruir um quadro econômico, politico e social tão completo quanto possível do processo histôrico, traçando paralelos e contrastes interregionais, fato historiografico não concretizado na região capixaba, cujas obras insatisfatórias para interpretação da nossa formação, estão concentradas nas áreas políticas e atrofiados os setores sócio-econômicos, não se questionando o passado ao nível e profundidade exigidos pela sociedade atual.
[3] Sobre a Batalha do Cricaré, ver: DALL‘ORTO, Marco Antonio Campo, Rio Cricaré e a História Cultural do seu povo, Vitória, 2009. Programa de Pós-Graduação em história da UFES - PPGHIS
[4]http://www.conceicaodabarra.es.gov.br/default.asp
[5]O processo de negociação de acesso ao exame do material do espólio documental da CIMBARRA encontra-se em curso com o seu representante legal Sebastião Bussolar.
[6]Quantos desses navios foram efetivamente construídos em Conceição da Barra, no estaleiro Caneca, é matéria de averigação na sequencia da pesquisa.
[7] http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=37200&norma=52904
[8]  BORGO, I.; PACHECO, R.; ROSA, L. B. R. de A. Norte do Espírito Santo: ciclo madeireiro e povoamento. Vitória: EDUFES, 1996. P 41,55.
[9]Um documento legislativo prova a concessão de terras a CIMBARRA feita pelo governo do estado.http://www.al.es.gov.br/antigo_portal_ales/images/leis/html/LO0360.html
[10]Um motor estacionário é um tipo de motor de combustão interna cujo conjunto não se auto-desloca, mas tem sua rotação empregada na movimentação de eixos e máquinas. Normalmente não se usa para mover veículos, mas sim para mover máquinas fixas como gerador, Moinho de algodão, estação de bombeamento, bombas ou ferramentas de trabalho. Podem ser com ciclo diesel, ciclo de otto, motor dois tempos ou motor a vapor. também pode ser utilizado em veículos com propósitos independente como bombear água ou mover basculantes. Os motores estacionários possuem diversas dimensões e são aplicados para as mais diversas atividades, incluindo centrais elétricas, motores utilizado nas usinas e fábricas antes do uso generalizado da energia elétrica, motores utilizados em minas. https://pt.wikipedia.org/wiki/Motor_estacion%C3%A1rio
[11]O motor a vapor, também chamado de máquina a vapor e turbina a vapor, é um tipo de máquina térmica que explora a pressão do vapor. Todas as máquinas térmicas funcionam baseadas no princípio de que o calor é uma forma de energia, ou seja, pode ser utilizado para produzir trabalho, e seu funcionamento obedece às leis da termodinâmica. Embora a invenção do motor de combustão interna no final do século XIX parecesse ter tornado obsoleta a máquina a vapor, ela ainda hoje é muito utilizadaː por exemplo, nos reatores nucleares que servem para produzir energia elétrica. No caso da máquina a vapor, o fluido de trabalho é o vapor de água sob alta pressão e a alta temperatura. O funcionamento da turbina a vapor baseia-se no principio de expansão do vapor, gerando diminuição na temperatura e energia interna; essa energia interna perdida pela massa de gás reaparece na forma de energia mecânica, pela força exercida contra um êmbolo.https://pt.wikipedia.org/wiki/Motor_a_vapor

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

                                                    CRISE DA ESQUERDA?

Por esquerda, entendo ser as praticas políticas e sociais e os programas teóricos de organização de instituições e de políticas públicas. Logo, a crise a que me refiro diz respeito a uma gama muita complexa de fatores e de perspectivas políticas. Afinal, no saco dos que afirmam ser de esquerda há tantos gatos quanto cachorros e lebres.
Ainda assim, sustento que estamos exatamente no meio da crise disso tudo ai que foi descrito. E por que crise? Como identificar uma situação de crise? Quais os contornos, e.t.c.? Não há respostas boas na praça!
É fácil comprovar que a esquerda não está em crise só no Brasil, mas no mundo. No Brasil, a esquerda se notabiliza na defesa de direitos, na busca do aumento da oferta de bens e de serviços e na manutenção do poder de compra do trabalhador. Nada pode abalar essa equação de esquerda, quando abala, por exemplo, na necessidade de adoção de medidas de austeridade fiscal, o consenso diminui e o cimento que une todos os setores da vida social, endurece, passa a ser alvo de ataques e achincalhos. Via de regra: o serviço público e os politicos que são alvejados!
Lá na Grecia, a esquerda está agora no meio do dilema de manter a Grécia na Zona do Euro ou "saltar de banda" rumo ao desconhecido ou o já muito conhecido populismo. Se sair da Zona, terá que se reinventar. Mas, como? Apenas na bravata da defesa de direitos?
Aqui está o núcleo de minha argumentação. A crise se põe justamente porque as alternativas economicas que foram criadas na tradição do pensamento de esquerda, não funcionam mais. No capitalismo, o que tem funcionado é apenas a ganancia descontrolada e desorientada, mas por mais incrivel que possa parecer, a ganancia move o mundo econômico, e a defesa de direitos e garantias, via de regra, torna-se fardo financeiro. A esquerda não cria nada novo. Um mundo com uma brutal concentração de renda e poder e a esquerda, tonta, sem saber o que fazer!
Sergio Fonseca   

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O LIVRO DIDÁTICO DO MEC É "SOLILÓQUIO ENFADONHO"?

Você sabe o que quer dizer solilóquio enfadonho? Pois é, é isso que é o livro didático que o MEC compra para distribuir entre todos os alunos da rede pública nacional. Solilóquio em filosofia é um monólogo enfadonho de alguém que supostamente sabe o que é a filosofia e a passividade de alguém que se supõe não conhecer a filosofia. O solilóquio é aquela filosofia que parte do conhecimento do autor ou professor para o leitor/aluno. 
Todo o ano a editora faz uma nova edição do mesmo livro, com algumas pequenas correções e alterações e mantém a necessidade de o MEC comprar "novos e atualizados" livros didáticos. Vou tentar mostrar como que essa "necessidade" decorre da natureza solilóquio da filosofia que se ensina hoje nas escolas públicas.
Quem no MEC avalia os livros didáticos?  É O FNDE/ https://www.youtube.com/watch?v=1G6CTHzCyy8#t=24. O livro que será avaliado aqui é o de filosofia: Filosofando: Introdução à Filosofia. Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins. 
Livros são linguagens que cada vez mais afastam-se da forma impressa para ganhar a forma digital e em rede. Alunos são os destinatários dessas linguagens. Os alunos podem ser, face a essas linguagens, ativos ou meramente passivos. Quando ativos, eles podem oferecer uma maior dinâmica e flexibilidade a essas linguagens que são compostas na forma de livros didáticos ou de material paradidático. 
Nos dois casos, a dinâmica da linguagem, nos dias de hoje, dificilmente poderia ser cristalizada em textos impressos na forma assumida por esses livros. É o formato impresso que está no foco da debate, ainda que a participação e ativismo cognitivos de alunos e professores também altera de modo positivo o conteúdo e a agenda das disciplinas. 
Por que financiar livros didáticos se eles são apenas receptáculos de dados e informações? Livros didáticos impressos funcionam apenas como velhas enciclopédias que face a um mundo digital e em redes, se desatualizam ainda antes de chegar a ser impressos. Mas, vejam que a desatualização se deve antes a dinâmica das formas de apresentação de linguagens na web, e não em relação a uma velocidade de novas e importantes descobertas, que aliás, também devem ser levadas em conta ao se trocar a linguagem nos impressos pela linguagem na internet.
E por que citar Heráclito para alguém que não sabe quem é o prefeito de sua cidade? Como dizer que "saber quem é Heráclito" significa "apreensão de conteúdo", satisfação de um processo pedagógico de ensino de filosofia?  Acaso o ser que é e não-é tem a ver com o esgoto a céu aberto ou com matanças de jovens por policiais? Aquilo que foi e que não pode mais ser, porque tudo muda, tem a ver com o fato de que a irmã que "vacilou" foi  executada por um namorado violento? 
Proponho, portanto, que ao invés de o MEC investir em material impresso para as aulas, que o faça na forma de disponibilidade de plataformas digitais, conectadas em rede, para que as próprias escolas mantenham o seu conteúdo e desenvolvam as suas estratégias de linguagens. Impedindo assim que o livro didático seja apenas uma disputa por milionários contratos com a viúva.
No caso do livro citado, o aspecto de "inércia do texto" se choca visivelmente com a dinâmica que as linguagens digitais e em rede já produzem no estudo da filosofia e com um custo financeiro milhões de vezes menor. 
Quanto ao conteúdo do livro, a inadequação, me parece que decorre do fato de que as autoras não fizeram um trabalho de pesquisa de linguagens com os jovens que serão os seus leitores. Lendo o livro é fácil identificar o descompasso entre as linguagens que os jovens utilizam em seu dia-a-dia e a que é proposta no livro. A distancia significa, em muitos casos, uma total indiferença ao que está escrito, não pelo conteúdo do que é dito, mas pela forma como é apresentado. A começar pelo antigo mundo grego, tão distante de um morador do IBES ou Santos Dumont!
A vivencia  gráfica que os jovens têm hoje nos remete a imagens de 3D e ao tempo contínuo da estação comunicativa online. Todos possuem uma timeline que os retiram duma notação convencional do tempo e os remetem a uma experiência de linguagem de moto-contínuo. Tudo isso os torna intolerantes a uma visualização de marca-texto, estático e sem vida. O texto impresso.
A filosofia é obrigada hoje a transitar pelos caminhos gráficos de games e pelos aplicativos da internet. E os alunos de filosofia não podem mais ser aquelas figuras passivas que recebiam o conteúdo jogado sobre eles. A aula de filosofia é dos alunos, não é do MEC ou do corpo pedagógico, mas dos criativos e imaginativos alunos! Talvez é chegado a hora de se TROLLAR os livros didáticos do MEC! 
Sergio Fonseca
Historiador