terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

                                                    CRISE DA ESQUERDA?

Por esquerda, entendo ser as praticas políticas e sociais e os programas teóricos de organização de instituições e de políticas públicas. Logo, a crise a que me refiro diz respeito a uma gama muita complexa de fatores e de perspectivas políticas. Afinal, no saco dos que afirmam ser de esquerda há tantos gatos quanto cachorros e lebres.
Ainda assim, sustento que estamos exatamente no meio da crise disso tudo ai que foi descrito. E por que crise? Como identificar uma situação de crise? Quais os contornos, e.t.c.? Não há respostas boas na praça!
É fácil comprovar que a esquerda não está em crise só no Brasil, mas no mundo. No Brasil, a esquerda se notabiliza na defesa de direitos, na busca do aumento da oferta de bens e de serviços e na manutenção do poder de compra do trabalhador. Nada pode abalar essa equação de esquerda, quando abala, por exemplo, na necessidade de adoção de medidas de austeridade fiscal, o consenso diminui e o cimento que une todos os setores da vida social, endurece, passa a ser alvo de ataques e achincalhos. Via de regra: o serviço público e os politicos que são alvejados!
Lá na Grecia, a esquerda está agora no meio do dilema de manter a Grécia na Zona do Euro ou "saltar de banda" rumo ao desconhecido ou o já muito conhecido populismo. Se sair da Zona, terá que se reinventar. Mas, como? Apenas na bravata da defesa de direitos?
Aqui está o núcleo de minha argumentação. A crise se põe justamente porque as alternativas economicas que foram criadas na tradição do pensamento de esquerda, não funcionam mais. No capitalismo, o que tem funcionado é apenas a ganancia descontrolada e desorientada, mas por mais incrivel que possa parecer, a ganancia move o mundo econômico, e a defesa de direitos e garantias, via de regra, torna-se fardo financeiro. A esquerda não cria nada novo. Um mundo com uma brutal concentração de renda e poder e a esquerda, tonta, sem saber o que fazer!
Sergio Fonseca   

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O LIVRO DIDÁTICO DO MEC É "SOLILÓQUIO ENFADONHO"?

Você sabe o que quer dizer solilóquio enfadonho? Pois é, é isso que é o livro didático que o MEC compra para distribuir entre todos os alunos da rede pública nacional. Solilóquio em filosofia é um monólogo enfadonho de alguém que supostamente sabe o que é a filosofia e a passividade de alguém que se supõe não conhecer a filosofia. O solilóquio é aquela filosofia que parte do conhecimento do autor ou professor para o leitor/aluno. 
Todo o ano a editora faz uma nova edição do mesmo livro, com algumas pequenas correções e alterações e mantém a necessidade de o MEC comprar "novos e atualizados" livros didáticos. Vou tentar mostrar como que essa "necessidade" decorre da natureza solilóquio da filosofia que se ensina hoje nas escolas públicas.
Quem no MEC avalia os livros didáticos?  É O FNDE/ https://www.youtube.com/watch?v=1G6CTHzCyy8#t=24. O livro que será avaliado aqui é o de filosofia: Filosofando: Introdução à Filosofia. Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins. 
Livros são linguagens que cada vez mais afastam-se da forma impressa para ganhar a forma digital e em rede. Alunos são os destinatários dessas linguagens. Os alunos podem ser, face a essas linguagens, ativos ou meramente passivos. Quando ativos, eles podem oferecer uma maior dinâmica e flexibilidade a essas linguagens que são compostas na forma de livros didáticos ou de material paradidático. 
Nos dois casos, a dinâmica da linguagem, nos dias de hoje, dificilmente poderia ser cristalizada em textos impressos na forma assumida por esses livros. É o formato impresso que está no foco da debate, ainda que a participação e ativismo cognitivos de alunos e professores também altera de modo positivo o conteúdo e a agenda das disciplinas. 
Por que financiar livros didáticos se eles são apenas receptáculos de dados e informações? Livros didáticos impressos funcionam apenas como velhas enciclopédias que face a um mundo digital e em redes, se desatualizam ainda antes de chegar a ser impressos. Mas, vejam que a desatualização se deve antes a dinâmica das formas de apresentação de linguagens na web, e não em relação a uma velocidade de novas e importantes descobertas, que aliás, também devem ser levadas em conta ao se trocar a linguagem nos impressos pela linguagem na internet.
E por que citar Heráclito para alguém que não sabe quem é o prefeito de sua cidade? Como dizer que "saber quem é Heráclito" significa "apreensão de conteúdo", satisfação de um processo pedagógico de ensino de filosofia?  Acaso o ser que é e não-é tem a ver com o esgoto a céu aberto ou com matanças de jovens por policiais? Aquilo que foi e que não pode mais ser, porque tudo muda, tem a ver com o fato de que a irmã que "vacilou" foi  executada por um namorado violento? 
Proponho, portanto, que ao invés de o MEC investir em material impresso para as aulas, que o faça na forma de disponibilidade de plataformas digitais, conectadas em rede, para que as próprias escolas mantenham o seu conteúdo e desenvolvam as suas estratégias de linguagens. Impedindo assim que o livro didático seja apenas uma disputa por milionários contratos com a viúva.
No caso do livro citado, o aspecto de "inércia do texto" se choca visivelmente com a dinâmica que as linguagens digitais e em rede já produzem no estudo da filosofia e com um custo financeiro milhões de vezes menor. 
Quanto ao conteúdo do livro, a inadequação, me parece que decorre do fato de que as autoras não fizeram um trabalho de pesquisa de linguagens com os jovens que serão os seus leitores. Lendo o livro é fácil identificar o descompasso entre as linguagens que os jovens utilizam em seu dia-a-dia e a que é proposta no livro. A distancia significa, em muitos casos, uma total indiferença ao que está escrito, não pelo conteúdo do que é dito, mas pela forma como é apresentado. A começar pelo antigo mundo grego, tão distante de um morador do IBES ou Santos Dumont!
A vivencia  gráfica que os jovens têm hoje nos remete a imagens de 3D e ao tempo contínuo da estação comunicativa online. Todos possuem uma timeline que os retiram duma notação convencional do tempo e os remetem a uma experiência de linguagem de moto-contínuo. Tudo isso os torna intolerantes a uma visualização de marca-texto, estático e sem vida. O texto impresso.
A filosofia é obrigada hoje a transitar pelos caminhos gráficos de games e pelos aplicativos da internet. E os alunos de filosofia não podem mais ser aquelas figuras passivas que recebiam o conteúdo jogado sobre eles. A aula de filosofia é dos alunos, não é do MEC ou do corpo pedagógico, mas dos criativos e imaginativos alunos! Talvez é chegado a hora de se TROLLAR os livros didáticos do MEC! 
Sergio Fonseca
Historiador

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

HEGEL: O REAL É MESMO RACIONAL?

A frase mais famosa da filosofia é a de Hegel: o real é racional, e o racional é real. E foi essa frase que lhe granjeou o título de filosofo conservador. Vou tentar aqui mostrar porque Hegel não deve ser tido como um filosofo conservador, não, se a base da argumentação for a sua filosofia do direito.
Curiosamente, o livro de Hegel que mais irritação causou, mais estímulos políticos produziu, não foi a Fenomenologia, obra revolucionária que trouxe a teoria do processo para dentro da filosofia, não foi ela, mas o "Princípios da Filosofia do Direito". O Estado, aqui, é elevado ao momento máximo da tomada de consciência da modernidade. O Espírito, em leis, faz-se carne!
Antes de tudo, é preciso saber que Hegel não diz o que deve ser, mas procura compreender o que é. Sem essa intelecção a piori, o "Princípios..." torna-se um exercício vazio de moral burguesa. Que é a forma como certos intelectuais interpretam a "crise moral da política de esquerda".
Hegel desconfiava que naquilo que é está a chave para aquilo que deve ser. O dever ser não é exógeno ao processo, ele sai de dentro do que é, mas apenas na condição de que o que é não seja confundido com aquilo que você deseja que seja.
Eu não consigo ver proposta de caminho filosófico mais promissor e rico do que essa do Hegel. Não existe, na filosofia, nenhum filosofo que assuma a abstração de modo assim tão aberto, tão positivo. Nele, ela não é apenas ponto de partida, mas também ponto de chegada para o pensamento. E, no entanto, Hegel é o filosofo mais concreto que eu já li em minha vida. A concretude do mundo, nele, parece ser o resultado de um longo e complexo processo de abstração.
Mas, calma! Vamos seguir mais devagar nesse filosofo, que não estava disposto, nem um único minuto, a facilitar as coisas para a gente. O voo de Minerva parte ao fim do dia, não há razão para que voce acredite que possa compreender o processo quando ele apenas desabrocha, ensinam os interpretes de Hegel.
Veja, antes, onde você está no processo, depois tente observar os seus links com o tempo de sua inserção no mundo. A partir daí, você deve entender que a contradição ou a mediação dos contrastes é o ambiente em que se encontra o sujeito da história de Hegel. Ou seja, Hegel movimenta-se filosoficamente num solo movediço, nada é o que parece ser. Esse é o mundo de Hegel, continua sendo o nosso!
A fama de conservadorismo do "Principios..." é inversamente proporcional a fama de revolucionário da "Critica da filosofia do Direito de Hegel", escrita por ninguem menos do que Karl Marx. Enquanto o velho Hegel é jogado na dispensa da história como um autor que deu a sua contribuição ao pensamento, mas que a partir daqui, do processo em curso, a sua filosofia não mais faz avançar, faz recuar, enquanto isso, Marx, passa a ser tratado como o pensador que sabe como fazer para inaugurar a racionalidade do mundo, antes que a falsa racionalidade mitifique o processo histórico. Troca-se, assim, um pensador conservador por um revolucionario na guia da história.
Mas, qual o contexto político dessa troca? A primeira metade do século XIX. A Alemanha dividida, rural e com uma classe política sem credibilidade. A esquerda hegeliana achava que Hegel via um mundo que não existia, só na cabeça dele era real. Daí a identificação total entre realidade e racionalidade, diziam. Eles estavam certos, facilmente Hegel concordaria com eles. Os motivos é que são outros. De fato, Hegel elevou o Estado a uma condição que não existia na realidade alemã de época. Os hegelianos de esquerda não viam a racionalidade que Hegel dizia haver no mundo.   
E aí é que está localizado o nosso problema. A racionalidade do mundo é a mais pura abstração do pensamento. Essa frase lapidar, pode ser retirada dos textos de Hegel com muita facilidade, em quase todos eles. Na verdade, a racionalidade é um modo hegeliano de tratar as contradições do processo em curso. Ela não é imune as vicissitudes do processo, porque nasce já contaminada com o fato de que o processo não se mostra no inicio, mas no fim. Logo, a racionalidade apresenta etapas contiguas ao processo de racionalização do mundo. Tudo aqui é precário, ou prosaico, antes que a razão se vê como autora do mundo e cuja narrativa é ela quem produz. Pôr ou não poesia no mundo? Isso é o prosaico, o dilema estético da filosofia da história de Hegel.
Agora podemos entender a frase lapidar contida ali no "Princípios...". Sempre que você olha para o mundo, o que você vê é a racionalidade. Se você vê um mundo real, então ele é racional, sintetizou Hegel. Pronto!  A racionalidade do mundo é o processo do mundo. Processo pelo qual ele, mundo, torna o que é.
Quando Hegel foi acusado de conservadorismo com essa frase, pela esquerda hegeliana, os seus discípulos acreditavam que a racionalidade do mundo não continha toda a realidade vivida, mas apenas aquela que resultasse da ação dos revolucionários atuais. Mas, todas as ações, revolucionárias ou não, eram racionais simplesmente porque estavam no mundo e não na imaginação.
Mas, para o sujeito de uma razão hegeliana de esquerda, a racionalidade é precariedade de um constructo do entendimento humano, e não aquilo que resulta do processo. Logo, o real não é racional enquanto a revolução proletária não a inaugura no mundo. 
Não há racionalidade se o programa revolucionário não é executado. Mas, Hegel havia entendido que o programa revolucionário havia sido posto em marcha com a revolução da modernidade: a laicização do estado, a vitória da ciência e da tecnologia, o direito constitucional, a revolução francesa, o iluminismo, e.t.c.
Hegel entendeu mais: ele entendeu que a racionalidade do mundo já se formava em etapas históricas pretéritas. Sem dúvida, na modernidade, Hegel via a consumação do processo. Aliás, não é outro o motivo que levou Hegel a identificar o real com o racional, pois foi a modernidade da vida que mostrou que não precisamos mais temer o mundo porque a racionalidade é que o comanda.
Como pós-hegelianos se pode falar em correção de rumo da racionalidade?  Podemos ainda imaginar uma racionalidade que se apresenta, dentro do esgotamento de uma racionalidade pratica, melhor calibrada?
A racionalização de Hegel continua revolucionária justamente porque permite correções de rumo, e bloqueia juízos morais burgueses que infectam o pensamento da superação!
Sergio Fonseca
Historiador


 

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Resenha do Livro Rumoa à Estação Finlândia/ Edmund Wilson

Rumo à Estação

The Finland Station: in the Writing and Acting of History (1940) foi pensado quando Edmund Wilson caminhava tranqüilamente pelas ruas de Nova York em 1934. Lhe ocorreu que nem o marxismo e tampouco a teoria moderna da história haviam sido expostos de modo compreensível. O título foi inspirado em To the Lighthouse (1927) de Virginia Woolf. A primeira parte do livro trata da vida e dos textos históricos de Jules Michelet, Ernest Renan, Hippolyte Taine e Anatole France. A segunda parte cobre o desenvolvimento das teorias socialistas na França, Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha: François Babeuf, Saint-Simon, François Fournier, Robert Owen , Prosper Enfantin, Ferdinand Lassalle, Michael Bakunin, Karl Marx e Engels. A terceira parte que trata sobre a dialética, discute as personalidades revolucionárias de Lenin e trotski. Wilson demonstra, com a Revolução Russa, como as idéias se convertem em ação e prova que tal evento não foi apenas histórico, mas também intelectual. Edmund baseou-se em fontes secundárias para conceber To The Finland Station. Fundamentais foram os livros: Marx, Lenin and the Science of Revolution (1926), de Max Eastman; From Hegel To Marx (1936), de Sidney Hook; Michael Bakunin (1937), de E. H. Carr. Com vasta experiência em descrições psicológicas e dramas existenciais, não foi difícil a Wilson ir fundo em seus personagens históricos para revelar detalhes significativos de suas vidas, sofrimentos terríveis e até situações esdrúxulas quando narra San-Simon recusando-se a receber um conhecido, aos 85 anos, porque dizia que iria perder a linha de raciocínio.Marx é apresentado em toda a sua grandeza intelectual, mas também em seu sofrimento familiar por conta da penúria material em que vivia.Do ponto de vista histórico-filosófico, To The Finland Station abre mais espaço para Michelet do que para Hegel. Este sim a verdadeira fonte de inspiração de muitos movimentos revolucionários do século XIX e XX, quando baseados no racionalismo e no Iluminismo. O autor respondeu dizendo que tinha verdadeiro horror por idéias abstratas e que detestava o idealismo alemão.Wilson levou seis anos escrevendo o livro. Neste interím, ele mudou a sua visão da Rússia, de uma posição mais romântica para algo mais realista. Contribuíram para essa mudança as farsas dos julgamentos de Moscou e o papel que Stalin jogou na Guerra Civil Espanhola.Mesmo assim, porém, Wilson pemaneceu fiel a sua visão romântica de Lenin. Todavia ele conseguiu separar o seu artífice da obra. A Rússia então lhe parecia uma terra de tirania, opressão, assassinatos e derramamento de sangue. Lenin foi tido como o exemplar raro da espécie humana que coloca à frente de seus intereses individuais os sofrimentos da humanidade. Foi o altruísmo de Lenin que provocou a revolução Russa, numa clara motivação psicológica que tenta explicar porque homens e mulheres, inteligentes e competentes, abandonam tudo em prol de um ideal.Mais tarde, em 1971, quando escreveu um novo prefácio para o livro, Wilson fez mea-culpa e admitiu que não havia notado a continuidade histórica entre a velha e a nova Rússia. Não havia hiato ou tampouco ruptura profunda. A nova Rússia seguiu sendo opressiva, manteve a censura, polícia secreta, burocracia incompetente e uma brutal autocracia.O livro tentou captar a atmosfera romântica dos ideais revolucionários, porém, mais tarde, ele próprio observou o paradoxo quando se deparou com a autocracia de Stalin. Wilson não concluiu, todavia, com a prova histórica na frente, que as idéias revolucionárias têm um destino trágico. Ele preferiu concluir o livro com Lenin chegando à Russia e as idéias revolucionárias e romanticas fervilhando e motivando homens e mulheres modernos a mudarem as suas vidas.Para muitos criticos de Wilson, a tese do livro veio a público (1940) num momento errado. Stalin fazia o pacto de não-agressão com Hitler; e a invasão alemã que jogou a Rússia na guerra. Enquanto Wilson publicava o livro, a Alemanha, Italia e Japão assinaram acordos econômicos e militares, a Itália triunfava na Líbia, a França fracassava na tentativa de ocupar Dakar e Londres estava completamente bombardeada. Os românticos herdeiros da revolução que Wilson enaltecia, limitavam-se a observar os nazistas invadir, ocupar e massacrar a maior parte da europa.No Brasil, o livro apareceu em 1986. Teve um sucesso estrondoso, mas não parece que seus leitores tivessem dado conta das incongruências entre a celebração dos ideais românticos e revolucionários e a realidade opressiva dos regimes políticos e sociais inspirados em tais ideais.Somente em 1989, com a Queda do Muro de Berlim, que tais contradições produziram reflexões intelectuais mais realistas sobre os destinos trágicos dos ideais revolucionários. Wilson tinha um conhecimento estupendo, era o tipo do intelectual sobre o qual se poderia dizer que havia lido tudo. Sem dúvida, essa sua caracteristica contribuiu para que To The Finland Station se tornasse um clássico já em seu nascedouro.
Sergio Fonseca

Drogas e Modernidade

O crack e a modernidade

Sergio Fonseca

O crack é a droga da crise da modernidade. Diferentemente da maconha, que produz um efeito reflexivo num ritmo lento e calmo do corpo e do cérebro, o crack acelera os batimentos cardíacos, paralisa o ...


O crack é a droga da crise da modernidade. Diferentemente da maconha, que produz um efeito reflexivo num ritmo lento e calmo do corpo e do cérebro, o crack acelera os batimentos cardíacos, paralisa o sentimento de medo e impotência, e converte o usuário, durante o tempo de efeito da droga, num super-homem. Ele potencializa tudo aquilo que nós, velhos modernos, gostaríamos de ser: sentimentalmente duros, fisicamente imbatíveis, e intelectualmente indiferentes às susceptibilidades, "pobres" e sensíveis, da natureza.
O crack estimula o indivíduo a ultrapassar a linha que demarca a convivência social. Os limites assim ultrapassados, obviamente, trazem de volta a era da selvageria. Ironicamente, a droga do fim da modernidade é a atualização de nosso caráter agressivo e bárbaro. Filosoficamente, por que o crack é tão sedutor?
De uma forma ou de outra, nós modernos gostamos da falsa sensação de sermos mais do que seres naturais. Na religião, inventamos a ideia de que somos feitos de um material diferente dos seres naturais: seríamos espírito. Na ciência, inventamos um troço chamado tecnologia que nos capacita para além de nossas limitações diárias do corpo. O carro moderno, com o vidro suspendido, o ambiente climatizado interno, a velocidade suave, a individualidade protegida diante do incômodo do restante dos mortais, o carro é o casulo da morada moderna do indivíduo hipervalorizado.
A hipertrofia do indivíduo depende, todavia, de algo mais para se manter, ainda que tal estado de sensação do corpo não seja propriamente real. Novamente, a religião está aí para nos proteger dos riscos de um mundo real. Como modernos, temos dificuldade em aceitar unguentos metafísicos para a angústia do nada que somos. Ou entramos no portal da religião, e novamente reforçamos a nossa impotência pois temos que nos prostrar diante de uma divindade; ou buscamos outra saída. Não estamos, todavia, enxergando nada fora daquilo que a modernidade nos disponibilizou: a possibilidade de turbinar o corpo como auto-sensação de potência e força.
As conseqüências reais da vida moderna não nos deixam esquecer que somos mortais e frágeis, isto é, naturais como tudo o que há no mundo. A fragilidade do corpo nos torna precários. A indeterminação da vida, nos torna impotentes. Todavia, a palavra de ordem da modernidade é retomar o controle da vida, logo, sustar o destino e o acaso, e fazer do corpo, via técnica e ciência, algo mais do que tecido disponível do mundo orgânico.
A ciência moderna naufragou em suas inúmeras tentativas de ser um sucedâneo para a religião. Logo, ela produz técnicas maravilhosas, artefatos engenhosos, instrumentos sofisticados, mas nada que nos faça fortes diante da precariedade da vida. Restam a religião, os alucinógenos, os fármacos e o crack.
O malogro da técnica e da ciência em dar sentido e valor a nossas vidas é a queda da modernidade. Nesta crise estamos agora como num deserto, não há valores que possam nos guiar. É o tempo do niilismo tout court, o terreno fértil para o crack. Os usuários não são vítimas da droga, mas vítimas de um tempo sem espírito que, todavia, nós próprios buscamos. E mesmo aqueles que não são usuários estão neste tempo. Para onde olhamos, vemos a queda do homem no abismo, no vazio, na ruína. E mesmo o dinheiro e o poder se mostram parecidos, em seus efeitos.
Todavia, não conseguiremos voltar às crenças passadas porque a iconoclastia é irrevogável. Os deuses se exilaram É o cheque-mate no indivíduo moderno derrotado. Para aonde vamos? O aumento do consumo do crack está indicando o retorno ao estado da selvageria e da barbárie.

Publicado originalmente em A Gazeta 28/10/09

terça-feira, 5 de julho de 2011

O Historiador e a Pós-modernidade

De Habermas podemos passar a considerar o impacto da revelação da pós-modernidade no contexto historiográfico de pensamento e pesquisa. Os historiadores ficaram sabendo da pós-modernidade a partir das discussões sobre o presentismo, o antiquário e a genealogia. Certamente, foi de Foucault, pelo menos em França, de onde sai as primeiras floradas do campo de um saber que virava-se, inusitadamente, à razão em tom de denuncia e insatisfação. Também o objeto agora é fragmento. As fontes apontavam para a socialização privada de indivíduos e coletividades. E, naturalmente, o poder era o alvo das investidas foucaultianas na história.
Foucault inaugura a pós-modernidade ao fazer uma operação de pensamento historiográfico até então pouco apreciada pelos profissionais de Clio: desfazimento. Em termos mais precisos, Foucault operou a desfamiliarização do conhecimento histórico ao voltar-se para o passado assentado na denuncia do presente. Tudo é o presente, e o passado é natimorto. E se agora se pergunta pelo o que houve no passado, de Foucault se pode ter uma única resposta: a presentificação faz do historiador um antiquário paradoxalmente evanescente. Os Usos e Abusos da História, de Nietzsche, serviu-lhe de inspiração.
Na genealogia tem inicio o tribunal que irá examinar o saber histórico do examinador. O olhar da história tinha, agora com ele, os dispositivos de desconstrucionismo que lhe faltava. O genealogista é um desconstrutor, um desfazedor de lugares comuns do saber. E isso foi na história uma revelação. Uma iluminação. De fato, Foucault parecia levar luz ás trevas da razão. Para tanto, ele procedeu ao trabalho de refazer o caminho que levou a razão a pavimentar com uma linguagem especial e científica a modelagem de seus fatos, métodos e técnicas de saber.
A linguagem constituía o homem. Isso ele trouxe de seu mergulho na tradição filosófica do ocidente. Levado por mãos nietzschianas, ele pode flagrar o momento exato em que uma linguagem nova inaugurava o homem moderno. Talvez sem ter plena consciência que navegava em águas turvas e miraculosas de Ser eTempo, o arqueólogo se aproximava perigosamente do instante do Big Ben historiográfico no qual os objetos e toda a aparelhagem mental de uma ciência são montados. A modernidade transparente deu-lhe, como fato extraordinário do pensamento que nascia, a ocasião e os meios para olhar o passado não mais como um artista cultor de uma hermenêutica clássica, mas como um operador de máquinas que pretende mexer nos dispositivos constitutivos de poder.
Todos sabem do assombro que brotou das revelações bombásticas foucaultianas a respeito dos presos e das prisões, dos loucos e dos manicômios, do sexo e da sexualidade como lugar permitido de se fazer e falar de sexo. Mas, fundamentalmente, a sombra maior da maldição foucaultiana recai sobre a constatação tácita de que o poder pairava em todos os lugares, que em fios de banda larga, em redes roteadas e gerenciadas, em IPs identificados e familiarizados, o poder se capilarizava para alcançar o alvo, para exercer a tirania da onipresença totalitária. Logo mais, Foucault esclareceu que o poder é produtivo e que ele não apenas controla e mutila, mas configura e põe em movimento os corpos e seus desejos.
O saber histórico, como uma modalidade de cientismo moderno, está contaminado pelos desejos de poder da razão. Eis as conclusões a que chegam o historiador esquisito da genealogia. O modo estranho, muito estranho, de fazer história de Foucault ganha estrada. Para onde se olhava, na década de setenta e oitenta, se via um genealogista desfazendo das camadas que se sobrepunham aos eventos que, qual as sendas perdidas, se indagava pelos escombros que encobriam as vitimas da história do poder. Vitimas que mais lembravam os personagens de um filme de terror que cola no vilão uma culpa que é do mocinho e da mocinha: Pois é da natureza do poder foulcaultiano atuar como ancoragem de valores que podem estar em qualquer lugar e via de regra estão nas mãos dos mais fortes. Obviamente, não cabe falarmos em vitimas se estamos tratando de uma historiografia de remodelagem do poder, do saber, da verdade e da justiça.
No Brasil, essa denuncia da razão e do poder foi recepcionada pela historiografia marxista de esquerda que achava-se, de algum modo, desgastada, por infinitas investidas em estruturas visíveis de poder econômico, e que, não apenas perdia a beleza e a sedução da apresentação e da narrativa, como também não tinha mais para onde prosseguir se não fosse bater pé na critica do modelo escravista e do capitalismo selvagem, desde a década de 1950.
Houve tentativas de juntar Marx e Foucault numa denúncia da exploração econômica de uma modernização desigual. Mas, é evidente que Foucault não podia ver nos explorados nada mais do que eles tinham para oferecer: uma esperança de que um dia poderiam, tanto quanto os seus algozes, exercerem o poder de forma implacável. Foucault já vinha da critica ao poder totalitário soviético que pegou a esquerda francesa de calças curtas!
O original na critica dele é que se podia visualizar num contexto de vivência a história das relações sociais e não apenas um movimento brutal de forças empurrando os homens de acordo com os seus interesses de classes. Um mundo cultural podia ser visto e sentido pulsar nas veias dos atores sociais que já não eram mais marionetes dos interesses cegos da infra-estrutura econômica Tampouco eram autômatos que apenas reproduziam em nível de superestruturas os movimentos do capital.
Os atores foucaultianos mantém vínculos de produtividade com o poder. Isso os torna mais sedutores aos historiadores com veias de aventureiros que perseguem mais o mundo dos humanos do que as formas estruturais da potencia de fazer e desfazer do poder. Pois como sujeitos produtivos de um poder inquietante, os atores históricos não podem ser vitimizados ao bel prazer de uma ideologia, muito embora também eles são agarrados pelas volúpias insidiosas de auto-afirmação do poder. Desde o momento em que se instaura, o poder deixa para trás suas insígnias de controlador oficial da administração pública para infiltrar-se nas consciências pecaminosas daqueles que transgridem as regras sociais, mas morrem de medo por fazer o que fazem.
Se a história é feita por todos aqueles que de uma forma ou de outra mantém vínculos com o poder produtivo, então não é mais correto deixar a história ser levada pelos julgamentos morais ingênuos de que podemos captar a verdade do que foi e a a justiça do que não se cumpriu. Não há justiça na história, porque não é possível apreender o homem sem os dispositivos de poder que o constitui. O arqueólogo e o genealogista estarão sempre de prontidão para que novas camadas de resistência ao poder-constituinte possam ser remexidas e trazidas à tona depois que a normatividade do que é certo e errado, justo e injusto, instaura-se. Aí tem início uma nova guerra na história para se saber o que foi soterrado na batalha da vitória da verdade e da justiça que novamente passaram a se impor. Ao historiador pós-moderna interessa saber dos marginais das politicas do poder, da verdade e da justiça. Quem e de que modo ficaram às margens dos novos valores que brotaram da derrota de outros modos de vida. O ato de pisotear os mortos é a forma encontrada pela verdade e pela justiça para se auto-afirmarem e varrerem a história com a pureza e o novo. Foucault não se ilude com a verdade e com o poder, mas também não acredita mais numa verdade límpida e pura e num poder justo. O destino do genealogista é a inquietação permanente.
Sergio Fonseca

Há Espaço no Mundo Atual Para a Sedução dos ideais Revolucionários?

O mundo vive hoje inúmeras perspectivas de transformações, e ao mesmo tempo temos várias linhas de acomodação de regimes de governo dentro de um quadro de tradição de cultura política.
No Oriente Médio velhas ditaduras estão em vias de serem substituídas por outros regimes. Mecanismos modernos de comunicação, como as mídias sociais na internet, foram as protagonistas que permitiram uma resistência virtual na rede, aos poucos o movimento foi crescendo e transformando no que é hoje. A Líbia, a Síria, o Egito..., muitos países da região apresentam o cansaço de seu regime e a multidão clama por mudanças, por novos tempos.
A China se moderniza, mas não demonstra enfraquecimento de seu regime. No Rússia a democracia se acomoda a velhos valores da cultura política do país, que mantém vivo os ideais de um estado forte e um regime coletivista.
Na Europa é a crise econômica que faz renascer antigos ideais de revolução, mas que são rapidamente apagados e sustados por conta do apoio politico e econômico dos mais ricos. A questão é saber se a crise é tão forte a ponto de influenciar a população a tomar atitudes revolucionárias pro-ativas. Na Grécia e na Espanha, os movimentos libertários ganham espaço nas mídias sociais por conta, talvez, do próprio cansaço dos valores que sustentam os ideais de democracia, igualdade e bem estar sociais.
Entretanto, o consenso político e econômico da comunidade europeia é forte o bastante para não permitir que os países membros, quando em crise, sejam desestruturados podendo ser seduzidos por ideais que possam vir a lançar o país para fora do sistema capitalista. A estabilidade e a prosperidade do continente são defendidas com unhas e dentes, os lideres políticos acreditam que fora do capitalismo moderno não há saída para a Europa. Logo, ondas revolucionárias aí parecem ser coisas do passado, apesar da impossibilidade de domínio e controle totais sobre os dissidentes do capitalismo europeu.
Na África, a situação da década de 1980 ainda persiste. Os graves problemas sociais e as intolerâncias étnicas e muitas vezes religiosas não permitem uma estrutura de sustentação política que ofereça estabilidade à ordem e aos consensos entre os grupos em disputa pelo poder. O resultado são as intermitentes guerras civis e a falta de solução para os problemas sociais, que têm tornado a população daquele continente nos excluídos permanentes dos benefícios da modernidade e da globalização. Aliás, para alguns estudiosos das desigualdades no mundo, as causas de tal situação se devem paradoxalmente ao padrão de modernização e globalização capitalista ocidental que é hegemônica no processo histórico em curso.
Na América Latina, temos o inicio de uma era de mudanças positivas, apesar dos percalços. O Brasil, o gigante todo-poderoso do continente, consolida a sua democracia e consegue resultados prodigiosos na economia, na distribuição da renda e na estabilidade monetária. Ele tem sido o dínamo propulsor do desenvolvimento da região. Os ideais de revolução por aqui acomoda-se na subida ao poder central do PT, um partido de fortes laços com os movimentos de contestação da ordem, mas que já produz consenso em torno da aceitação das regras do jogo e do compromisso com a estabilidade e os parâmetros de organização do mercado capitalista. O PT agora respeita os contratos, como se diz por aí...
Lideres com discursos de esquerda têm sido os preferidos nas disputas eleitorais. Há alguns mais radicais, é bem verdade, como é o caso da antiga Cuba e da Venezuela. Cuba defende com unhas e dentes o regime socialista implantado por Fidel, uma espécie de mistura entre o marxismo soviético e o populismo latino americano. Na mesma linha é a Venezuela que , todavia, sustenta a ideologia do bolivarianismo.
Nos dois casos a tradição do populismo mantém-se viva. É verdade que em muitos outros países da AL a desigualdade econômica e social é intensa, mas os estáveis regimes conservadores não são questionados em seus fundamentos, ou seja, será que a incompetência em melhorar os indicies sociais e a qualidade de vida da população não se deve exatamente ao padrão ultrapassado e velho do regime conservador no poder? É por isso que atitudes como as de Chavez e o grupo de Fidel em Cuba, sobretudo confundido revolução com autoritarismo e populismo, ainda continuam a seduzir muitos políticos e lideres de movimentos sociais na AL.
No geral, porem, as gestões de esquerda tem sido positivas diante do eleitorado, e diante de comparações com os governos da década de oitenta de matrizes amplamente voltadas para o tal consenso de Washington.
Todavia, podemos falar numa onda revolucionárias atual? Numa onda de propulsão de ideais revolucionários?
Bem, primeiro é preciso afastar as concepções clássicas de revolução e de modos revolucionários de transformações sociais, econômicas e políticas. As tais mudanças radicais têm sido menos sedutoras por conta justamente do fato de que a maioria dos países que já experimentaram mudanças profundas têm resistência muito maior em acreditar nas velhas utopias grandiosas de mudanças sociais e culturais.
De outro modo, dificilmente num país como a Alemanha o povo irá embarcar numa nova aventura para uma guerra civil ou mesmo num novo delírio militarista. A experiência histórica de um povo conta muito na contabilidade para o retorno de ideais revolucionários.
No entanto, na Alemanha há profundas indicações de atitudes e comportamentos sociais de apelo e sedução por mudanças profundas do país, sem necessariamente ter que ocorrer a quebra da ordem constitucional ou a mudança abrupta do sistema econômico. Por exemplo, a decisão do governo alemão de eliminar as suas usinas nucleares, por conta de uma forte pressão popular, demonstra que o país quer mudanças, mas controladas e racionais.
Então, o tema da revolução, da possibilidade da revolução num sentido clássico de uma utopia que promete alterações radicais e abruptas da sociedade parece inviável em muitos países. Sem dúvida, para aqueles países que experimentam ondas retrogradas de modernização, em vários casos, há países que sequer entraram na modernidade, ai sim podemos falar numa possibilidade de restauração dos ideais utópicos revolucionários.
Ainda assim, é preciso muita cautela nessa linha de abordagem porque de fato nesses países o regime político no poder nutre o seu autoritarismo e sua forma predatória de exploração exatamente no fato da penúria e miséria do povo. Logo, não é difícil de constatar que é mais provável a continuidade de guerras civis e golpes de estado do que de processos límpidos e utópicos de mudanças sociais e revolucionárias ocorrerem por ali...
Sergio Fonseca